Eu também não sabia "como" ou "porque" as conversas com os psicólogos mudam nossos comportamentos*.

Catania (1988, apud Hübner, 2001), notório cientista e pesquisador do comportamento humano, já afirmou o quanto o comportamento verbal é um modo eficiente pelo qual um organismo pode mudar o comportamento de outro organismo.

Se você parar para refletir, quais são as ocasiões em que se recomenda o trabalho do psicólogo (a psicoterapia) para alguém? Ainda que não possamos generalizar, na grande maioria das vezes isso ocorre em momentos de discussão ou quando alguém está apresentando algum comportamento considerado, arbitrariamente — aos olhos dos outros —, “inapropriado” ou “disruptivo”. Pode ser também quando alguém ou algum grupo de pessoas alega que um indivíduo está “descontrolado”, “fraco” ou que ele “não está batendo bem da cabeça”, e por aí vai. Ora, se assim estão me julgando por conta dos meus comportamentos, surge dai um dilema“Se eu procurar um psicólogo, estarei admitindo que os outros estavam certos sobre mim.”

Diante de uma dessas circunstâncias, também foge ao conhecimento dessas pessoas que elas estariam tomando uma decisão: a de não procurar psicoterapia. De certa forma, isso está ligeiramente relacionado a evitar que os outros estejam certos sobre os julgamentos que fizeram sobre elas ou mesmo sobre as recomendações que lhes fizeram. Agir assim — “não procurar esse serviço” —, em certa medida, remete ao clichê social de “não querer dar o braço a torcer”. Logo, há uma forte tendência a não buscar psicoterapia, o que denuncia uma resposta de fuga em relação ao “que os outros pensam”. Embora seja difícil admitir, isso pode ser uma das razões pelas quais muitos não procuram psicoterapia — não para todos, claro (Martins, 2024).

Enfim, nosso assunto aqui é descrever como esse negócio de conversar com o outro pode, definitivamente, ajudar alguém, produzir mudanças na vida de alguém, servir ao outro.

Mas, se me permite, voltando rapidinho ao parágrafo acima, veja que, se minha hipótese analítica estiver correta, já identifico que se trata de uma pessoa que se preocupa muito com a opinião alheia — outro ponto que ela dificilmente irá admitir.

Psicoterapia não é para ver quem está certo ou errado. Isso é muito arbitrário — e, ao meu ver, muito chato —, para não dizer infindável, essa discussão. Não compramos essa briga. Portanto, “aquietai-vos”. Como já disse em meu livro, não passamos cinco anos enfurnados em uma cadeira universitária e depois mais dois, quatro ou muitos outros, especializando-nos, na busca dos melhores conselhos, dicas ou sugestões para dar aos nossos clientes em uma sessão de psicoterapia. Esqueça isso. Estamos no século XXI, e você, como pessoa bem informada, já poderia — ou mesmo deveria — estar sabendo disso.

A diferença entre conhecer por compreensão e conhecer por descrição: onde a “mágica” acontece?

Primeiro, esqueça essa ideia tola de “mágica”. Não há nada de mágico nisso. Sem muitos floreios, vou assumir a responsabilidade de tentar resumir aqui como — ou mesmo por que diabos — uma simples conversa tende a gerar mudanças fora do contexto clínico. Bom, pelo menos esse é o desafio.

Quando você conhece algo por compreensão, está implícito que você compreendeu algo que lhe foi anunciado e, a priori, pode-se dizer que há algumas vantagens nisso. A primeira é que você não precisará pesquisar para “conhecer” aquilo, certo? Dizemos que esse tipo de conhecimento é governado por regras (dicas, conselhos, sugestões, enfim, instruções descritas) transmitidas por outras pessoas. Não obstante, você corre o risco de cair no “golpe do vigário”, ainda que se ache esperto o suficiente para fazer uma pesquisinha básica no fim do dia no ChatGPT. Muitas pessoas passam uma vida inteira se comportando sob a influência de regras e se recusam fortemente a testar a própria realidade.

Quando você conhece algo por descrição, isso já sinaliza que você se expôs aos contextos, produzindo, assim, consequências que moldam e reforçam seu conhecimento. Em resumo, você formula um conceito acerca de algo porque, no passado, já o experimentou diversas vezes e sabe como proceder caso venha a se deparar com aquilo novamente. Chamamos esse segundo modo de comportamento modelado pelos contextos — para não dizer “modelado pelas contingências”, termo técnico muito utilizado por nós.

Enfim, agir sob a influência das descrições das próprias consequências que hão de vir de suas ações lhe confere muito mais flexibilidade, autonomia e, portanto, variabilidade para modificar seus comportamentos, caso deseje. Ao contrário do comportamento guiado por instruções ou regras, que tende a deixar o indivíduo mais perdido caso os contextos mudem (Castanheira, 2001).

Seguir uma receita (dicas e sugestões, que são exemplos de regras) de como fazer um bolo, sem dúvida, fará com que ele seja produzido em menos tempo. Entretanto, se não houver farinha, dificilmente você se lembrará — ou acreditará — que é possível utilizar fubá (e há quem ainda não saiba que fubá é farinha de milho) para a mesma finalidade. A pessoa que descobriu, por tentativa e erro ou por exposição direta aos contextos (às contingências), que pode utilizar outros tipos de farinha — até mesmo a de mandioca — dificilmente ficará engessada caso um tipo de farinha acabe. Graças às consequências do seu comportamento no passado, ela pode concluir que diferentes farinhas levam ao mesmo resultado: o bolo pronto. Como se pode observar essa segunda pessoa apresenta muito mais flexibilidade do que a anterior.

Independentemente da abordagem psicoterapêutica — isto é, da teoria com a qual o clínico trabalha —, basicamente todos nós, psicólogos, estudamos, a partir das diversas teorias presentes na grade curricular do curso, como se estabelecem as aprendizagens do Homo sapiens. Estudamos como aprendemos o que aprendemos, como aprendemos a pensar, a sentir o que sentimos, a nomear o que sentimos, a reagir ao mundo (e às pessoas) ao nosso redor, incluindo o nosso próprio organismo, entre outras questões.

Ao quebrarmos um dos braços, isso remete a uma série de limitações que impactam a nossa vida; contudo, se esse não for o braço dominante, apesar das limitações, ainda conseguiremos realizar boa parte do que fazíamos antes. Certamente, durante seus primeiros anos de vida, você aprendeu algo a respeito de alguma doutrina religiosa — ou talvez não. Para muitos, essa convivência será um fator determinante na forma como olharão para outras orientações religiosas ou espirituais. Fato este que predisporá o indivíduo a valorizar algumas coisas e, ao mesmo tempo, a repudiar várias outras.

Todavia, não caberá a nós — psicólogos — ficar alegando “o que é certo ou errado” nessa história de desenvolvimento, mas sim entender como você aprendeu a ser como é. Que tipos de contextos foram determinantes para selecionar seu jeito de se expressar, de se cobrar, seus medos, seus excessos? E, que me desculpem os céticos e ignorantes, mas, se para nós — que carregamos formações, especializações, supervisões e aperfeiçoamento contínuo — já há “pano para manga” para compreender as variáveis determinantes do comportamento de alguém, imagine para o próprio sujeito, que sequer sabe a quais determinantes estamos nos referindo. Não que haja necessidade de complicar, mas trata-se de processos muito mais complexos do que as acepções que a pessoa tem acerca de si mesma ou do que uma simples resposta de uma consulta ao ChatGPT.

Sabendo de tudo isso, nós, clínicos, nos munimos de um instrumental fundamentado em nosso referencial teórico — no meu caso, como psicólogo comportamental e analista do comportamento, a ferramenta básica é a análise funcional —, que contempla análises, hipóteses, testes de hipóteses e suas confirmações, para então iniciar as intervenções, aliando os objetivos clínicos aos objetivos do cliente e elegendo os procedimentos adequados para alcançá-los.

Uma das principais formas de implementar essas intervenções é por meio de perguntas abertas. Essas perguntas devem carregar uma sabedoria muito particular, pois, por meio delas, conseguimos levar o cliente a acompanhar o raciocínio analítico a ponto de ele identificar e descrever “como” ou “por que” aprendeu a se comportar como se comporta, a sentir o que sente e a pensar o que pensa. Ao mesmo tempo, será nosso objetivo levá-lo a discriminar — isto é, a dizer a si mesmo — como sua situação atual e sua queixa se mantêm, ou mesmo o que está mantendo suas dificuldades.

Preciso abrir um parêntese aqui para dizer, em poucas palavras, que o saber, o conhecimento, não muda comportamento. Ele é, sim, o primeiro grande passo para a mudança. Cito isso em meu livro Consequências: quando a vítima não é por acaso, caso você tenha interesse; deixarei meus contatos abaixo.

Se você não sabe como o fenômeno se manifesta em si, dificilmente estará preparado para enfrentá-lo. Com certeza, você irá pressupor — para não dizer “achar” — que algo está acontecendo por determinado motivo, quando, na verdade, pode se tratar de algo bem distinto. O clínico fará perguntas específicas sobre diversas situações da sua vida, inclusive sobre como você interagiu com determinados ambientes no passado e no presente. Para responder a essas perguntas, inevitavelmente você terá de “escanear” variáveis ambientais que nós inferimos estar relacionadas à sua queixa e que, por desconhecimento do que estudamos, você anteriormente não havia considerado. Porém, agora, modificado pela relação terapêutica, você diz: eureca.

As pesquisas avançaram ainda mais, indicando que, ao modelarmos essas formulações verbais dos clientes sobre seus próprios desempenhos (autoinstruções), é possível aumentar a sensibilidade deles para seguir o próprio diálogo interno e, por sua vez, colocar em prática o que foi descoberto (Hübner, 2001).

Ao discutir as implicações para a prática clínica, vários autores nacionais e internacionais (Hübner, 2001; Castanheira, 2001; Medeiros, 2010, 2020) defendem que, ao alterarmos o discurso do cliente, este passa a ficar mais atento ao que ocorre à sua volta e, concomitantemente, a ficar sob a influência das contingências (variáveis ambientais), e não meramente de suas formulações verbais, que eventualmente podem estar incorretas.

Como se pode concluir, se eu, na condição de “falante”, disser a você, na condição de “ouvinte”, o que fazer, pode até ser que você concorde. Contudo, quando estiver vivenciando a situação — a contingência, como costumamos chamar —, certamente o falante (eu, no caso) não estará presente, e haverá grandes chances de você esquecer o que foi dito. Por outro lado, quando se modifica o relato verbal do cliente a ponto de ele emitir uma autorregra — isto é, dizer a si mesmo o que deve ser feito —, o “falante” e o “ouvinte” passam a ser a mesma pessoa, e ambos estarão presentes na situação, o que aumenta consideravelmente as chances de a mudança ocorrer (Medeiros, 2020).

Obviamente o assunto além de extenso e complexo na literatura, não é nada tão esclarecedor quando se trata de esclarecer isso à alguém, mas espero que você possa ter ao mínimo compreendido que há meios para a tal mudança fora da clínica. É importante deixar claro que, por mais que me considero um eterno aprendiz no assunto, pensei numa escrita mais comportamental, portanto, não dá pra considerar a outras áreas da psicologia. Não duvido que muita gente ainda não faz psicoterapia, justamente por não acreditar ou mesmo saber como a tal conversa clínica acarretará mudanças na vida do cliente fora da sessão. Inclusive, tenho lá minhas dúvidas se acaso nossas autoridades no assunto propagassem mais para os leigos como nossa ferramenta de trabalho funciona, que impactos isso teria no índice de procura desse serviço?

Em específico, a Terapia Analítico-Comportamental possui sua base teórica fundamentada na filosofia do Behaviorismo Radical, aliada a diversos fundamentos empíricos advindos da Análise Experimental do Comportamento, bem como de suas respectivas fontes de pesquisa básica e aplicada, que comprovam a eficácia de suas intervenções.

Rolemberg Martins

Psicólogo – CRP: 0429906. Analista do Comportamento

Especialista em Terapia por Contingências de Reforçamento.

Autor do livro “Consequências: quando a vítima não é por acaso”. Possui mais de 17 anos de experiência clínica. É apaixonado por estudar comportamento humano. Atualmente atende pessoas no modo presencial e on-line em diversas regiões.

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Referências:

CASTANHEIRA, S. dos S. (2001). Regras e aprendizagem por contingência: sempre e em todo lugar. Guilhardi, H. J., Madi, M. B. B. P., Queiroz, P. P., & Scoz, M. C. (Orgs.). Sobre comportamento e cognição: Expondo a variabilidade. Vol. 7. (pp 36-46). Santo André: ESEtec.

HÜBNER, M. M. C. (2001). Comportamento verbal e prática clínica. In Banaco (Orgs.) Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento e terapia cognitivista. 1ª Ed. Santo André, SP: ESETec Editores Associados.

MARTINS, R. O (2024). Consequências: quando a vítima não é por acaso. 2ª Ed. Editora do autor. Uberlândia.

MEDEIROS, C. A. (2010). Comportamento governado por regras na clínica: algumas considerações. In De-Farias (Orgs.) Análise comportamental clínica: aspectos teóricos e estudos de caso. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: Artmed.

MEDEIROS, C. A. (2020). Psicoterapia Comportamental Pragmática: Da mudança no comportamento verbal à mudança do comportamento fora do consultório. In Rocha (Orgs.) Comportamento em Foco 12: Reflexões sobre teoria e prática do ana­lista do comportamento. – São Paulo, SP: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental - ABPMC.

SKINNER, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Apple-ton-Century-Crofts.

*Comportamentos: tudo aquilo que pensamos, sentimos e fazemos.

A palavra psicologia traz ou carrega muitos significados para muitas pessoas. Aqui, utilizarei a expressão “funções” para representar os diferentes significados que isso possa ter para pessoas distintas. Para alguns, é sinônimo de oportunidade para se beneficiar desse recurso; para outros, a função já é aversiva, com conotação negativa, no sentido de associá-la a “quem não consegue se controlar”, etc. E pode apostar que há muita gente que poderia se beneficiar desse recurso, mas não o faz devido à “função” negativa que a pessoa aprendeu, ao longo da vida, sobre as palavras: psicologia, psicólogo, psicoterapia.

O nosso comportamento verbal é um mecanismo interessante e, embora ele não tenha nenhum efeito direto sobre o mundo físico[1] — pois, por mais que verbalizemos “quero água, estou com sede”, esse som não tem nenhum efeito direto sobre um copo d’água —, ele é mediado por outros homens (Skinner, 1957). Ou seja, o efeito do comportamento verbal é sobre um ouvinte, no caso, outros homens que pertencem à mesma cultura, região e que compartilham a mesma linguagem.

Portanto, dizer a mesma coisa — “quero água, estou com sede” — na presença de outras pessoas aumenta as chances de receber um copo d’água como consequência do nosso comportamento verbal.

[1] Com exceção agora do mundo tecnológico, pois uma máquina pode iniciar um funcionamento com um comando de voz, enfim essa discussão está em debate na comunidade científica.